Tecendo Diálogos sobre o tempo do agora

Perspectivas para um novo caminho
27/07/2020

O período de quarentena e de isolamento social que vivenciamos como medida de contenção da transmissão da COVID-19 acarretou a interrupção das atividades escolares e, com ela, o afastamento das nossas crianças e adolescentes de seus iguais. Afastou-os também de toda uma rede de parentes próximos, de especialistas e de cuidadores, repercutindo na dinâmica da rotina familiar.

Houve uma reorganização do espaço doméstico para abrigar outras atividades e, com isso, a intensificação da convivência familiar, em que os pais passaram a desempenhar alguns cuidados e estar à frente de rotinas nas quais até então não se envolviam tanto. Isso trouxe uma maior possibilidade de fortalecimento dos vínculos, mas também potencializou conflitos.  

Diante desse contexto de inseguranças e incertezas, as famílias foram expostas a pressões e tensões de várias ordens, o que repercutiu nas suas relações e na saúde emocional de seus membros. 

Foi observado que muitas crianças e adolescentes passaram a apresentar mudanças de comportamento nesse período. As mais comuns foram: dificuldade de concentração, irritabilidade, ampliação dos medos, inquietação, tédio e alterações no sono e na alimentação. Tais mudanças, na maioria das vezes, são apenas respostas adaptativas, e não necessariamente sinalizadores de uma patologia. No entanto, podem aparecer também alterações mais significativas no comportamento e até mesmo o agravamento de quadros preexistentes, o que alerta para a necessidade de uma avaliação criteriosa do nível de sofrimento pelo qual estão passando e a identificação do momento de procurar ajuda especializada.

Assim como a adoção do ensino remoto, a flexibilização e a transição para o retorno às atividades escolares presenciais vão nos remeter a novos desafios, exigindo mais uma adequação da rotina familiar, o realinhamento de regras e horários e o fortalecimento da parceria de confiança com a Escola no sentido de dar maior segurança aos filhos diante de uma dinâmica escolar diferente daquela que eles já conheciam.

Implicará em novas atitudes regidas pelos protocolos de segurança e higiene, assim como no lidar com a vida em grupo sob novas condições, em que o distanciamento social ainda se fará presente e desafiador, considerando os receios que podem advir do contexto de pandemia. A espontaneidade da criança e a propensão ao pensamento onipotente do adolescente irão exigir, tanto por parte da escola como da família, uma postura de orientação e vigilância. 

Essa nova adaptação pedirá algumas mudanças comportamentais, como maior organização, planejamento e foco, o que não acontecerá repentinamente. Apesar de nosso desejo de retomar a normalidade o mais breve possível, teremos que seguir as determinações das medidas de saúde pública de nosso Estado, além de nos mantermos atentos ao processo de cada criança e adolescente, oferecendo o acompanhamento e apoio necessário para a construção de uma nova rotina.  

Vivemos um período excepcional, que pede, antes de tudo, mais acolhimento dos adultos aos seus próprios sentimentos, para que, assim, possam também acolher a raiva, a frustração, o medo e a tristeza dos filhos, ajudando-os a buscarem caminhos que fortaleçam seus recursos pessoais e suas competências socioemocionais.

Cada família vive contextos diferentes e está buscando formas singulares de enfrentamento dessa nova realidade, por isso deve construir os roteiros dessa caminhada dentro das possibilidades que tem atualmente, evitando os modelos prontos e as cobranças excessivas.

É necessário transitar com equilíbrio pela resiliência, tolerância, flexibilidade, escuta, leveza e motivação, conscientes do papel de adulto, de ser guia e amparo, sem deixar que o excesso de exigências se sobreponha ao empenho em fazer o melhor possível. 

A Escola tem realizado diversas atividades visando abrir espaços para que os alunos sejam preparados para essas mudanças e trabalhados em suas expectativas e recursos pessoais para lidarem com os sentimentos advindos desse novo ciclo. 

Esse é mais um capítulo desta história que estamos sendo chamados a escrever juntos, pouco a pouco. Temos a nosso favor o desejo e a dedicação de todos para que o espaço escolar se torne novamente habitado, acolhedor e alegre. Espaço de troca, de crescimento e de conhecimento. 

Serviço de Psicologia Escolar e Orientação Educacional (SPE)

 

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